Nano contos
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A espectadora
Na estação de Santa Apolónia dois pardais vencem um grande pombo. Num truque bem ensaiado roubam-lhe o bocado do papo-seco. O pombo larga num voo enfurecido, bate num ninho de fios e acaba em espiral descendente, estatelado na linha, somando-se a outros detritos com cheiro ferroviário.
Eu assisti. O velho com muletas riu-se e quase embateu numa jovem apressada - "Malucos" disse ela no mesmo passo acelerado. Eu ouvi. O velho das muletas empunhou uma delas, eh grande bastão, e acertou-lhe no rabo. Ela correu impulsionada pela mola da vergonha desaparecendo em espanto calado. O velho encobriu a manhosice espontânea, recuperou a sua atitude envelhecida, cuspiu e fez-me uma vénia.
(hfa)
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Enervâncias no alto da Serra
- Não neva!
- Mas há neve, olha.
- Um quadrado de neve queres tu dizer.
- Eu não quero dizer nada.
- Nem a criança tem espaço para rebolar, ou então, com o calor da fralda derrete-se o gelo...
- A neve te...
- Ou isso....
hfa
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Café insolúvel
Falámos mal do café. Por unanimidade decidimos que era café "queimado" antes mesmo de termos provado as borras que criavam um sedimento pastoso no fundo da chávena e que nos encheram os lábios de areias escuras. Nessa parte comentavas os últimos desaires domésticos: - a máquina de lavar loiça kaput fini, o ferro de engomar também se avariou e, como se não bastasse, fundiram-se as lâmpadas da cozinha - fizeste uma pausa para rematar num quase desmaio das palavras "há dias em que tudo acontece".
Eu estava prestes a acrescentar para teu sossego que não há duas sem três mas tendo as três acontecido estavas livre de desastres, mas não cheguei a abrir a boca. Quem ficou com a boca em OH como uma personagem de banda desenhada foste tu ao ouvires a Dulce aconselhar que devias colocar uma vassoura ao contrário atrás da porta da entrada da tua casa e que devias tomar um banho atirando sais para as costas "tens os caminhos poluídos" dizia, e tu estagnaste com a boca em OH numa abertura oval perfeita. Surpresa fiquei eu também, sem saber que grafia assumiu o meu rosto, não pela iluminação da Dulce, mais uma pomba assassinada, mas pela tua reacção. Esperava em ti uma sequência mais comum, como uma palavra em desdém de sitcom: "really!.." Mas tu és uma loira singular, fizeste-te sem repetições televisivas, sob os campos do interior onde a tua boca se abriria em OH de personagem aventureira quando talvez uma rajada de vento destruísse uma pernada de árvore fruteira ao mesmo tempo em que, talvez, uma raposa afastasse, veloz, a sua cauda da capoeira. A Dulce continuou em conselhos extraordinários,
mas a tua boca já se habituara ao discurso e apenas a limpavas com impaciência das borras do café.
Acho que pagámos setenta e cinco cêntimos pelo líquido preto que bebemos. Tive vontade de uma expressão esdrúxula mas sentia o esófago a crepitar de azia.
hfa
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