Poesia do tal poeta aos caídos 

Listening to David Bowie

Desponta a claridade na casa aberta

Vazio quase real

Clarividência do verso que o vento abandona

Milagre do fim a quem a morte visita.

(E onde se senta ele, onde?

Cantará, falo ardente, em voz de caverna

e de luz?

Esvoaçam as metamorfoses de um só homem?

Mantém o paraíso a face espumosa ao toque do

seu silêncio?)

É que ninguém vai d'avançada, como na organização

dos grandes eventos, como os da guerra;

Em exploração, como a Marte ou à Lua.

Ninguém volta da morte, que é de morte

que aqui se fala.

Tirar o vento, o grão que a pressa do tempo

empurra de um lado para o outro; pousa; volta a

voar. Tirar o vento não é milagre. É a morte.

E é da morte que sempre se fala.

(Terá dançado? Estará agora sentado?

Electrizou a modorra dos paraísos?)

O vento voltou.

Mexeu coisas, tirou-as do lugar

Perdi alguns versos. A morte passou.

Já não é da morte que aqui se fala.

Nem sempre é dela que se fala. É des

sa Voz. Da vida que vampiramos. É

desta madrugada inóspita que a música

salva.

hfa

vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv

Cândida Mente

Quando minto é da veia que guarda dos antigos animais

a genuína coreografia,

dessa insípida veia onde tresmalham vozes das raízes,

que deduzo induzindo, se preciso mentindo, ou regurgitando

verdades impessoais,

dessa veia esmorecida de velhas medicinas me sai em mentira a

pureza da verdade

Nesses momentos a verdade assalta-me

como espíritos que descem em certos corpos

Silêncios que escorregam escadas abaixo,

corrosivos domésticos que o corpo traz da genética

como na pedra o fóssil

Mistura de sórdidas lamas e águas puras

Mentiras em flor que o fogo consome.

hfa

vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv

(Ridley Scott regressa à terra 200 anos depois - o poema da febre dos fenos)

Duzentos anos se passaram

Muitos no tédio da eternidade

Volto de mão dada com Ridley

(Quisemos trazer os Pink Floyd

Os últimos intelectuais

Os gajos continuam fodidos de vaidade

Ardem algures num campo que nos é vedado.)

Descemos à terra

A terra é azul

Eu tenho os meus objectivos, que é um.

Não conheço as razões do Ridley

Pergunto-me se mataram os gregos

Se haverá quem me leia um poema.

A terra é azul. Não bebem vinho!

Vendia o Ridley por uma gota de néctar

- mauzinho o pensamento! Sou do Séc XX

Eram maus os homens no Séc XX!

Vendia o Ridley, comprava um dizeur,

Bebia - tem de haver mercado paralelo -

E ainda conseguia uma labareda

Distracção que vale oiro no paraíso.

A terra é azul.

O Ridley também pensou vender-me.

Quer muito rever o blade runner.

Ainda não percebemos quem guarda a História.

A terra é azul.

Desesperamos por música e vinho, e sexo por

Entre palavras.

Haverá sexo? Pergunto porque não trouxemos

Buñuel, e o Ridley, a sumir-se em desespero, informa

- Não mora no paraíso.

A terra é azul.

Somos estrangeiros. Tratam-nos como curiosidade

De circo embora não saibam o que é um circo ou

curiosidade

Eu só quero uma coisa afinal, que não é vinho, música,

Sexo.

Claro que não encontro, porque quem habita o paraíso perde.

Perde tudo. Perde formação técnica.

A técnica é essencial para o mercado negro. Ele existe.

Os homens existem.

Choro quando vejo um elefante na terceira avenida.

Third Avenue? Really? Claro. Claro que aterrámos em NY.

Where else? No paraíso não há gente poli geográfica.

No paraíso não há gente muito inteligente.

A terra é azul. O sol perdeu energia. Eu quero mudar a frase

"no paraíso não há gente muito inteligente". Não posso.

A visita é guiada. Dizem que não posso perder tempo a escrever.

Peço para regressar ao passado. Aqui não há o que procuro.

O Ridley enfurece-se numa american way das antigas.

A terra é azul. O elefante é lento e pesado. As pessoas...

- Dizem-me que não posso descrever as pessoas.

A visita é guiada. Os guias levam-nos por belos postais anilados.

Afinal bebe-se, espreito eu de uma janela futurística.

Não se diz janela. Ninguém sabe o que é uma janela. Sorry darling.

Sorry. Darling. Ainda! Moove on darling apitam para o Elefante.

A terra é azul. Não existem janelas. O tempo escasseia. Existe tempo?

Sorry darling, time? O Ridley está tonto com as emoções do futuro.

Veio à procura de uma mulher robot que não está no paraíso.

Não está no inferno. Sorte a dele que procura uma máquina.

Os guias sorriem. É ela que fiscaliza o azul dos dias.

Podem levá-lo à torre de controlo. Ela espera-o? Sim, ela espera.

Espera por ele? Sim, espera.

Sebastianista robot à espera de Ridley Scott 200 anos depois,

em New York. Bom título para um título do Séc XX.

Eles olham-se como só no futuro se olham assim, vitricamente.

A terra é azul.

Eu não encontro o que procuro. Afundo-me numa tristeza sanguínea.

Tenho a certeza: confundi futuro com passado. O paraíso baralha.

Vendia o Ridley por uma bebida. Vendia-o sem vergonha por líquido

Russo. E punha música a tocar-me nos ouvidos. Tão alta que rebentasse

O paraíso.

hfa

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Ele está na sala com ela

Claro que ela está com ele na sala

Não estão um com o outro

A sala é um nome

De um silêncio antes da guerra.

hfa


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São poucas as horas do amor,

Apenas as protocoladas para roubar o sorriso

Que nos rouba primeiro

Posto isto acaba.

Fica um punho a mais

Uma pedra

Ou um peixe e uma azálea.

O amor,

essa indefinível criação do homem,

zigazeia breve por todos os caminhos.

O peixe, figo de figueira, punho ou pedra

Azálea flor, ou

É narrativa de sobrevivência.

hfa

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As minhas mãos procuram as tuas

Em vão, era outro tempo de revés

Com o mar alto vazava a maré

O fogo nas minhas mãos acesas

Apagou com a espuma que rebentava

Do fundo do mar alto na maré vaza

Ficou o gesto das minhas mãos que

Procuram as tuas

Bêbado da espuma dos dias

Cego dos dias e das noites vazias.

hfa

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Se eu soubesse

Se eu soubesse que o tempo amacia

Minha voz

Que se faria até espécie de amigo d'ocasião

Que te manteria ao meu lado

Mais branca

Mais calada

Mais insubstituível

Se eu soubesse que o grito se pode transformar

Em asa

Dilecta asa do dia clareado

Se eu soubesse que hoje estaria aqui

Sentindo a brasa da fogueira fugir p'ra cinza

Contigo sorrindo no sono maior do inverno

Se eu soubesse que o mundo todo nem pesa tanto

Só pesa muitíssimo de saudades

Se eu soubesse que o grito não me faria falta

Só a força dos braços

Só a vontade de te ver de novo morena

Minha mais branca, mais calada, insubstituível

presença

Se eu soubesse que virias a ser o maior amor da minha

Vida

Teria sido aquele que fui gritando para nada?

hfa

vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv


A Ponte

A luz perpassa a cortina embaciada

Envolve-se em mil pirilampos de prata

Molhada

Invade a privacidade de uns amantes

Vasculha a miséria sob a ponte das

Margens sujas

Quero-te tanto minha perdição

Diz um amante cego em gemidos

A pátria é Pária Parca Porca Pulha

Ouve-se em transtornos compassados

A luz não recua mas pouco mais alumia:

O corpo está sedento de prazer

A miséria germina à solta de milagres

A luz não recua. A névoa avança

E é nesta confusão de humidades

E reticências que o louco cala a lenga-

lenga e os amantes desfalecem ao seu lado

Mortais.

Entretanto o sol cresce no dia já largo

Há sítios escusos, escuros, escondidos

O louco dorme, a miséria cresce, os amantes

Estão sedentos de prazer

Não se adivinham luas românticas

Nem brilhos d'águas densas

A ponte fatiga

Os amantes gemem à vez

Os loucos varrem as horas com canções

de erres, de erros. De errâncias turvas

As margens explodem as virtudes da noite

São foguetes, são sonhos, são vinganças,

salivas, mamas, cús...

a luz não ilumina

nada amanhece nesta parte do rio.

hfa

vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv


Meu amor não fales

Eu calo-me

vamos tactear no escuro

fazer o que melhor nos sabe

Vamos agastar a réstea

mocidade

Deitá-la fora no suor das

Mãos

Torcer a cintura

Morder o silêncio

Gritar ao nascer do dia

Como galos cantar

Fazendo o que melhor

Nos sabe

Adormecer depois, morrer

Depois, envelhecer depois.

Agora calo-me de palavras

Não fales.

hfa

vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv


Dias de tragédia e eu penso em

Penso nas dobras do corpo p'las febres

dos outros, do que poisa negro ao lado

quando em nós o delírio faz.

Dias de tragédia e eu penso em

De como a lua banhava a cama onde

Cervantes, é nele que penso, quão louco requer

a mudança

Na cama suada, aumentando o teu sexo por mim

adentro, é nisso que penso

Dias de tragédia e eu,

sobre as personagens da volumosa literatura

sobre dois corpos poisados em palavras nuas,

penso nos cornos contra o sentido dos moinhos

Há uma enorme tragédia. Também um corpo em ânsias

próprias, é a vida.

Não respondes; procuramo-nos ambos na literatura

Por entre sexo, Roma, Cervantes, não esta tragédia,

mas a cama onde.

hfa

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Imbricações


Escreveu a senhora:

"a presente questão tem fortes imbricações..."

Estupefacto fiquei com a simplicidade estética,

Imbricações, tomai nota!

Deu-me ganas de imbricar com ela

E depois de imbricar mesmo nela

Tentei, aliás, variadas imbricações

De nada me valeu

Eram só dela essas munições gasosas

Como ovos podres da sua imaginação!

Livra, do que me livrei eu,

Estaria agora imbricado até ao pescoço

Pela linguística, claro, essa enorme cobra

Que alimenta assassina o corpo do poder

hfa

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Ninfa

Que pele delicada teus ombros têm

Que macio o tecido do teu corpo

Que jovem e proibida a tua face

Toda perfume do entardecer,

quando os teus dias só manhãs

atrevidas oferecem,

apoiaste a tua nudez nos meus olhos

quiseras unir-me aos teus lábios

delineados de primaveras poucas

num sorriso de lâmina fresca

Que brinquedo tão carnal

eu toque um dia

dando de cobiça aos meus dias

além de te olhar

algo mais por companhia


hfa

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A Nanda da Tabacaria

A Nanda da Tabacaria

A todos recebe com "Bom dia alegria"

Tem olhos de grandes amêndoas como

a Twiggy dos anos setenta

Espanta ao entregar-nos o troco

com piadas de quem quer, mas coitada

não tem, a graça de poder encantar.

O marido que encontrou

É sisudo, pouco esperto, desconfiado

Mas o puto desta genética dá p'ró engraçado

Galante de certas finuras tem todo um ar

D'antiquário perfumado

Mas a Nanda, a Nanda da Tabacaria, quando avança

do balcão desorganizado range as ancas até à porta

arrastando consigo sabe-se lá o peso de que passado

E chegando à luz da rua - oh a sorte da rapariga!,

avistando o jardim que tem de frente

assobia uma espécie de uivo entre os dentes

e feliz corre sobre as flores sem o ressoar d'ancas

e as abraça ao peito arfante e lhes sorve o perfume

em visível transe

A nossa Nanda tem qualquer floral filia carnal

único erotismo que lhe imagino despida em casa

no meio de vasos e vasinhos com plantas, plantinhas,

humidade e luz no ponto, aos ais circulantes, deixando-se

tocar pelas pétalas, pelos grandes fetos, aos ais circulantes

com ressoar de coxas e quebras de amêndoas grandes

Olha a rapariga! Sem graça.. sem graça!..

Bom dia alegria e outras piadinhas sem sal...

Falo dela, imagino-a, e quisera Borges escrevê-la

era poesia que encontrava

Eu direi apenas, como cliente do jornal semanal,

que uma flor de sementes cresce dentro dela!

hfa

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Sono domesticado

Há uma fileira de poeira talentosa

Que nos serve de leite matinal

Pelo almoço fornece proteína na dose recomendada

Mantendo pela noite dentro uma preguiça ordenada.

Técnicos com excelente formação avaliam sonhos

Empreendedores inovam as velhas rodas do sistema

Ostras crescem sem pérolas nos charcos da evolução

da pesca,

tal como os besugos do antigo mar e na terra a oliveira

disparam excessos rápidos imitando naturezas mortas

Na savana porém adoecem criaturas descoloradas de tanta

Polaroid, brotando nostalgias de catálogo, curáveis.

Há trabalhadores a coser o velho manual de passos

de dança

A coreografia raspada de bolores permite aderir por junto

A ofertas de TV por cabo, por fibra, por satélite, com

heróis lá dentro sem a ponta erótica de um pecado

a mover o mundo

Chocalha o sininho Zé: ashtags, cenas bué maradas, piadas

sub desenvolvidas, a cabeça em rinoceronte outra vez,

um blockbuster de Hollywood meu,

e nós somos o asteroide ao serviço das ordens retornadas.

hfa

vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv


Os beligerantes

No papel estava escrito:

"Os fluídos dos amantes

Em manchinhas pegajosas

Que secam amarelecidas nos

Lençóis postos a lavar"

A estes dizeres adocicados

Alguém escreveu por baixo

"Beligerantes - os dois amantes

na cama com suas contas de somar

mais ou menos certas consoante o

jeito natural de bem fodelhar"

Depois de um risco e de uma chaveta

Escreveu ainda

"Sabemos todos: quem inventou a guerra

Senão os dois amantes na cama que só

Dormindo e sonhando se amam..."

hfa

vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv


Espécie de Hino ouvindo a nona

Invade a música e nada floresce

Porque não é água nem sol nem terra

Embriaga por instantes a flor esplendorosa

porque flor é flor porque breve a sua morte

Farejas a pedra até ao bafo do lagarto?

Não te transformas, não, não ficcionemos

Mas caminhas para a humana substância, essa

de um elefante ao lado e próximo o seu cemitério

A música não aduba os campos nem a flor perdura

O lagarto não se faz amigo e o elefante desaparece

(mesmo que eternizes os acordes do teu verão na savana)

Invade a música e nada floresce

Mas no peito, quem sabe, imane luz fraterna.

hfa

vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv


Sem título (o que já é um título)

A moça sonhava seu sonho e

Era lírico o sonho que a moça

Sonhava

Tinha uma paz que crescia pelo dia

Uma manhã de bosques até ao mar

Mas quando fechava os olhos (e não

dormia), dançava num palco, tocava

Violoncelo, dirigia os pianos e os clarinetes

Tocava em orquestra, era maestro,

voz de soprano, Macbeth, Julieta, três

mulheres muito altas,

Lírico era seu sonho em tardes maiores que

dias inteiros,

Trabalhava seus morangos, molhava os pés

no tanque das rãs, olhava tudo e tudo amava

Era serva da terra e nativa das águas, artesã de

sua última morada em buraco de bicho sem

olhos

Prestes a embrulhar-se de raízes sonhava

Bailarina, compositor, palhaço, saltimbanco

Líricos os sonhos da senhora que repousa.

hfa

vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv


O baile das pequenas figuras

Dois loucos de amor bailam por cima

Do meu braço

Eu faço contas, debito palavras escuras,

Tão escuras que arqueiam ombros e desfeiam

Olhares

Os dois dançam, loucos varridos

E mais dois compinchas divertem-se por cima

Do outro braço

Eu digo "orçamento", digo "respeitável", digo

"há que trabalhar mais e melhor"

Baixo os braços com as cócegas de tanta diversão

Saio da reunião e bailo também um pouco, escondida

Entre os armários tristes do corredor

Passo-lhes a mão pelas cabeças, digo "menos barulho",

Digo "menos cócegas", endireito-me e sorrio mais uma

Vez

Não me aguento e entro na brincadeira, pulo para o

Braço do chefe que passa e diz "há que limpar o nome da

Instituição" e diz "veja quanto nos custa limpar o nome da

Instituição", irritado repete para o rapaz da área
financeira

"veja quanto nos custa...", mas o rapaz já não ouviu,

ficou estático ao ver-me dançar no braço impotente do chefe

e soluçou gago "t-t-t-també-é-ém qu-que-quero"

Foi despedido. Para tudo há que aprender uns truques

Fazer de conta que sou sério Senhor Dr. e só penso em
seriedades

Digo "vou melhorar" e digo "somos um"

E digo ainda quanto nos custa salvar a instituição.

hfa

vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv


Corpos doídos

Porquê este azul arroxeado no horizonte

Porque pousa a folha perfeita tão próximo de nós

E o besouro, porque luz o seu corpo preto e suas

Asas de petróleo dentro dos nossos privilégios

Porquê tão visíveis as areias da praia em quase noite

Porquê já a lua se avistamos ainda um tão triste sol

Porquê esta beleza a invadir-nos a casa num dia normal?

vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv


Variações com pombos

i

O pombo de papo em pompa

Emproa plúmbeo peso sobre a

Pomba

De inflamado papo

De cauda em leque

Avança o patchouli d'engate

O pombo em pompa

Emproa mais papo

Alarga mais penas

E varre terríveis os

Odores rivais

A pomba empomba com o pombo que desemproa

A proa

Breve serão pais.

ii

O apartamento do andar de baixo entrou em obras

Os homens limparam a varanda dos lixos do abandono

Mantiveram o balde com a pomba e seus dois ovos

Lá pra dentro destruíram paredes, sanitários, mosaicos

Na varanda a pomba alimentava dois pombinhos sôfregos

E esfomeados

Pintaram paredes, colocaram armários, ripas de madeira

No chão

A pomba desapareceu

Os pombos passeavam, magritos, até às grades da varanda

Os homens não os mataram, deixaram-nos morrer enquanto

No telhado outros pombos com responsabilidades

Arrulhavam o dinheiro das apostas: poucos no voo; muitos

na morte.

iii

Eu gosto dos pombos e os pombos gostam de mim

Mas não ao ponto de trocarmos carinhos ou confidências

A nossa relação baseia-se, aliás, em manter a distância

Pensam eles que o meu propósito é matar

Penso eu que tão rápidas as areias cubram a cidade

As vítimas serão as do meu lado

O meu gosto pelos pombos não se abala na incerteza

Tenho-lhes amizade, sim, amizade de parque quando felizes

As criancinhas correm ao seu encalce

E mágoa, tenho-lhes mágoa quando abruptamente infelizes

Deixam cá em baixo escarnecidas criancinhas na tentativa de voar.

A nossa amizade é desta paz hipócrita:

Quando olho para a varanda de baixo e vejo que nascem pelo

Menos aos pares

E os pombos quando no parque arrecadam sobras do meu manjar.

iv

Não morreram os pombos sem mãe

A morte serve bem a ficção

Magritos os dois é verdade, um deles

Bate as penas no circuito da comprida

Varanda

Será pombo militar na disciplina do corpo moldado para

Voar

O outro, mais franzino, menos bonitinho, encolhe-se a um canto

Não se sabe o que será em grande

Dias depois o aprendiz de militar voa até ao alpendre

O franzino sem rumo na vida, em tudo mais demorado,

Dá tímidos passos.

Hoje terão voado, já não os vemos

Imagino morto o franzino e na academia o militar

Mas diz-me o porteiro que aquele ali, aponta,

À luz fria de um voo baixo, é o feiozito. Sim,

Reconheço-lhe a timidez. Olha! Olha! Um dissimulado,

foi o que me ocorreu dizer.

O pombo ontem enfezado levanta no voo, bate - que eu vi-

Nas folhas das árvores, grito-lhe: zarolho!

v

O jardim municipal à frente da casa está em obras

Levantamento do chão alcatroado, remoção das terras

Relvadas - para que o jardim brilhe antes das eleições

Felizes estão os pombos que não votam mas aproveitam

Nos socalcos abertos novas iguarias. São tantos! Uma

Concentração de apoiantes sem direito ao dever de cidadania.

Não aparecem as gaivotas bélicas, facto que comento com o

Homem do catarpiller, sim, continuo, estranho não virem

Apartá-las para reinar. O homem deu-me por fim a sua

Confiança: sumo de minhoca é saudável, faz-lhes bem, o pombo

Médico receita-o, Ah! exclamo e ele conclui: das gaivotas não sei,

parece-me que andam no lixo.

E o médico pombo, conte-me mais pedi, mas o homem nada mais

Tinha para me dizer. Meti as mãos nos bolsos e pensei no médico

Como um pombo atualizado, um cientista do seu tempo, feito

De tecnologias a apregoar sucos naturais de outros corpos mais

Pequenos.

Antes de terminar esta epopeia de pombos olho em redor, tudo

Em reconstrução, não reconheço nenhum dos pombos mas pressinto

O olhar do franzino sem rumo e, com a certeza da sua timidez,

Descubro-o solitário e esfomeado nos ramos das árvores, não lhe

Auguro muito tempo de vida, nem eu a ti responde atrevido

Olha. Olha. É mesmo ele, o zarolho dissimulado!


vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv


Canção do dia triste

Dia escuro e tão triste

Traz-me água para beber

No deserto minh'alegria

Soterrada

Minhas lágrimas em pó

Traz-me oh dia triste

água para eu beber

Sonhos então cristalinos

Já não consigo ver

Oh dia tão 'scuro desfazem-se

As mãos sem bem-querer

Um corpo quebrado não

Tem querer como das raízes

Desfeitas se escreve morrer

Oh traz-me água p'ra renascer

Dia tão escuro tão triste dá-me

Água a beber.

hfa

vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv


Domingo Jovem

O domingo em S. Vicente acorda com sol

O vento sustém-se, abanando as coisas leves

Os cães dormem por todo o lado, não há mal que

os desperte

A praça ecoa músicas da noite e as sombras das

danças mornam o chão

E a praia! A praia embala um longo sorriso que

o vento foi amansando pelas encostas negras e

varridas dos montes

O mar tem cor de chegada feliz e mesmo assim

o domingo em S. Vicente cava um vulcão, ou rea

cende-o dentro de mim, como os mortos nas mesas

de Natal instalam no peito suas espadas ferventes.

Mas o domingo ainda vai pela manhã e não trouxe

por enquanto a cor e o sabor da papaia nos passeios

ond' ontem eram os peixes que saltavam dos alguidares

p'rá venda

Esta hora 'inda guarda sonolência de grogue

Um velho passeia a bengala com camisa larga de verdes

Uma mulher trançada estende um sorriso porque sim

Porque é domingo talvez, um domingo jovem como ela,

a construir melodias sem natais, com o peito a crescer

no fogo dos desejos, e tudo isto (mais tarde) m'invade

oh milagre de Cabo Verde.

hfa

vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv


A flor de setembro

Eis que depois da cortina melancólica

Da chuva de setembro a flor despede-se

Em luz

O mistério permanece: o sol escolheu-a

Para nos enternecer ou das suas raízes

Nasceu a cor, o cheiro, o dia ao entardecer?

Amanhã nova chuva outonal virá molhar os

Passos em redor do jardim

A flor murchou de vez, o sol voltará depois

De curada a ferida, a primavera dar-lhe-á

Virgens flores vigorosas e desprevenidas.

hfa


vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv


Poesia i

O poema é um demónio

Um frenesim em remoinho

Vestimo-lo com palavras

Domesticamo-lo

Confundimo-lo

Apresentado à sociedade

liberta-a, fá-la sonhar com

passarinhos...

regressar à infância de onde o

demónio saiu em remoinho

Vestimo-lo de música empapada

de cores enjoativas

ou ...

com a tal (...), a tal palavra des

medida!

No dorso da besta está escrita

a voz bendita, divina

às vezes decifrada na domesticação

da fera que consome as criancinhas

O poema da tal (...), da tal palavra

É o demónio ele mesmo

De olhos verdes e corpo molhado.

hfa



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Poesia ii

Oh, a poesia, a poesia, que faz

A poesia para melhorar a tua vida?

Deu-te a visão ó míope, tirou-te um

Calo dos pés, branqueou-te os dentes?

A poesia é o fio de algodão andrajoso

Caído no chão

É a luz que nele brilha quando lhe bate

O sol

E é também a invenção do amor.

(hfa)


vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv


Noves fora zero

As coisas começaram a correr mal quando

cada um cozinhava sozinho suas habilidades

de gastro ciência

A bancada era de um ou de outro, nunca

um condimento mais se misturava

e tanto assim continuaram que às tantas

seus ais de prazer igualmente castro

ocupavam à vez a repentina madrugada

Mas ainda assim a coisa andava

Pior foi quando apareceu na história

a moça da estação de gasolina

Aí ela pensou - tudo estragado! - e pensou

ainda que a vida era um filme onde agora

entrava a cowboyada. Com aqueles amigos

da noite, fumando e bebendo enquanto esperavam,

o cônjuge e ela corriam perigo, ui pensava- finalmente

um lance arriscado.

O marido não sabia puto, a moça tudo sabia e ela

tinha como afirmação de vida que na morte o

que sobra é nada!

(hfa)


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Tinha Bens

Tinha bens, como se diz. Era rica. Era uma jovem

mulher rica.

Tinha alma de melancolia, a própria pensava

Pegava no carro e percorria a rota da luz,

Para observar melhor dava-o ao motorista e assim

libertava os meandros da alma nas curvas da viagem.

Pedia ao motorista que parasse. Avançava para encostar

o corpo nas ruínas das casas

Apanhava flores com pétalas que logo voavam. Abria

a destinada os braços a cada lusco-fusco e alvoradas

Apaixonou-se um dia por um casebre à beira da nacional

onde antes da estrada quase abandonada havia estrada

concorrida

e antes desta em natural comunhão humanas vidas

Comprou-a por tuta e meia - segredo meu motorista meu,

segredo meu

Caminha então para lá numa ânsia de se recolher a céu aberto

por cima de ervas e ao lado de bichos, encostada às pedras do que

fora casa - segredo meu motorista meu, segredo meu.

Escolhia um canto de onde via céu, uma árvore só dela e uma

enseada amarela da cor da séca, e ouvia um barulhinho de vento

que quase era água

Veio o inverno e fez obras na casa. Veio o verão e organizou festas

muito faladas

(Segredo meu motorista meu, segredo meu)

Depois arrancava com o carro e visitava do cimo de montes altos

abismos de mar e de terra e sentia o corpo como que a rogar

deixar-se cair por ali abaixo

Mais tarde havia de contar esta sensação ao motorista, ficava

sempre tão aflito o seu motorista, não percebia a sua estranha

melancolia. Tinha medo que se lançasse no embalo de um vento

que assobia palavras encantadas às serpentes suicidas que há nas

escarpas

Certo dia de maior desalento, avistou a jovem um pequeno

charco de girinos em transformação - segredo meu motorista

meu, segredo meu - e o motorista tão já mais melancólico ainda

coaxou como rã e saltou para a sua mão sedenta de criaturas

sós.

(hfa)

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Declaração de princípio

Acento desregrado

Tino tirado

Sentido não há

porque palavra

não é

Mas porquê? Se

xilépépé

diz disto o que

é!

Tantos santos

de tanto pecador

Tanto bruxo endireita

Padre e sua madre

Xilépépé pode ser o que

é
Princípio do vocábulo

lélé

ou

quando nada mais a

dizer: Xilépépé

p'ra ti e p'rá titi

mais que patati patatá

tanto bruáá

pouco tino

muita figura

estilo mui fino

Agora Xilépépé!

Ah, xilipépé é

bola de cabeça

pontapé do pé! Xi, fecha

a porta Zézé qu'isto

é coisa de gente xéxé!

(hfa)

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