Poesia do tal poeta aos caídos
Listening to David Bowie
Desponta a claridade na casa aberta
Vazio quase real
Clarividência do verso que o vento abandona
Milagre do fim a quem a morte visita.
(E onde se senta ele, onde?
Cantará, falo ardente, em voz de caverna
e de luz?
Esvoaçam as metamorfoses de um só homem?
Mantém o paraíso a face espumosa ao toque do
seu silêncio?)
É que ninguém vai d'avançada, como na organização
dos grandes eventos, como os da guerra;
Em exploração, como a Marte ou à Lua.
Ninguém volta da morte, que é de morte
que aqui se fala.
Tirar o vento, o grão que a pressa do tempo
empurra de um lado para o outro; pousa; volta a
voar. Tirar o vento não é milagre. É a morte.
E é da morte que sempre se fala.
(Terá dançado? Estará agora sentado?
Electrizou a modorra dos paraísos?)
O vento voltou.
Mexeu coisas, tirou-as do lugar
Perdi alguns versos. A morte passou.
Já não é da morte que aqui se fala.
Nem sempre é dela que se fala. É des
sa Voz. Da vida que vampiramos. É
desta madrugada inóspita que a música
salva.
hfa
vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv
Cândida Mente
Quando minto é da veia que guarda dos antigos animais
a genuína coreografia,
dessa insípida veia onde tresmalham vozes das raízes,
que deduzo induzindo, se preciso mentindo, ou regurgitando
verdades impessoais,
dessa veia esmorecida de velhas medicinas me sai em mentira a
pureza da verdade
Nesses momentos a verdade assalta-me
como espíritos que descem em certos corpos
Silêncios que escorregam escadas abaixo,
corrosivos domésticos que o corpo traz da genética
como na pedra o fóssil
Mistura de sórdidas lamas e águas puras
Mentiras em flor que o fogo consome.
hfa
vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv
(Ridley Scott regressa à terra 200 anos depois - o poema da febre dos fenos)
Duzentos anos se passaram
Muitos no tédio da eternidade
Volto de mão dada com Ridley
(Quisemos trazer os Pink Floyd
Os últimos intelectuais
Os gajos continuam fodidos de vaidade
Ardem algures num campo que nos é vedado.)
Descemos à terra
A terra é azul
Eu tenho os meus objectivos, que é um.
Não conheço as razões do Ridley
Pergunto-me se mataram os gregos
Se haverá quem me leia um poema.
A terra é azul. Não bebem vinho!
Vendia o Ridley por uma gota de néctar
- mauzinho o pensamento! Sou do Séc XX
Eram maus os homens no Séc XX!
Vendia o Ridley, comprava um dizeur,
Bebia - tem de haver mercado paralelo -
E ainda conseguia uma labareda
Distracção que vale oiro no paraíso.
A terra é azul.
O Ridley também pensou vender-me.
Quer muito rever o blade runner.
Ainda não percebemos quem guarda a História.
A terra é azul.
Desesperamos por música e vinho, e sexo por
Entre palavras.
Haverá sexo? Pergunto porque não trouxemos
Buñuel, e o Ridley, a sumir-se em desespero, informa
- Não mora no paraíso.
A terra é azul.
Somos estrangeiros. Tratam-nos como curiosidade
De circo embora não saibam o que é um circo ou
curiosidade
Eu só quero uma coisa afinal, que não é vinho, música,
Sexo.
Claro que não encontro, porque quem habita o paraíso perde.
Perde tudo. Perde formação técnica.
A técnica é essencial para o mercado negro. Ele existe.
Os homens existem.
Choro quando vejo um elefante na terceira avenida.
Third Avenue? Really? Claro. Claro que aterrámos em NY.
Where else? No paraíso não há gente poli geográfica.
No paraíso não há gente muito inteligente.
A terra é azul. O sol perdeu energia. Eu quero mudar a frase
"no paraíso não há gente muito inteligente". Não posso.
A visita é guiada. Dizem que não posso perder tempo a escrever.
Peço para regressar ao passado. Aqui não há o que procuro.
O Ridley enfurece-se numa american way das antigas.
A terra é azul. O elefante é lento e pesado. As pessoas...
- Dizem-me que não posso descrever as pessoas.
A visita é guiada. Os guias levam-nos por belos postais anilados.
Afinal bebe-se, espreito eu de uma janela futurística.
Não se diz janela. Ninguém sabe o que é uma janela. Sorry darling.
Sorry. Darling. Ainda! Moove on darling apitam para o Elefante.
A terra é azul. Não existem janelas. O tempo escasseia. Existe tempo?
Sorry darling, time? O Ridley está tonto com as emoções do futuro.
Veio à procura de uma mulher robot que não está no paraíso.
Não está no inferno. Sorte a dele que procura uma máquina.
Os guias sorriem. É ela que fiscaliza o azul dos dias.
Podem levá-lo à torre de controlo. Ela espera-o? Sim, ela espera.
Espera por ele? Sim, espera.
Sebastianista robot à espera de Ridley Scott 200 anos depois,
em New York. Bom título para um título do Séc XX.
Eles olham-se como só no futuro se olham assim, vitricamente.
A terra é azul.
Eu não encontro o que procuro. Afundo-me numa tristeza sanguínea.
Tenho a certeza: confundi futuro com passado. O paraíso baralha.
Vendia o Ridley por uma bebida. Vendia-o sem vergonha por líquido
Russo. E punha música a tocar-me nos ouvidos. Tão alta que rebentasse
O paraíso.
hfa
vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv
Ele está na sala com ela
Claro que ela está com ele na sala
Não estão um com o outro
A sala é um nome
De um silêncio antes da guerra.
hfa
vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv
São poucas as horas do amor,
Apenas as protocoladas para roubar o sorriso
Que nos rouba primeiro
Posto isto acaba.
Fica um punho a mais
Uma pedra
Ou um peixe e uma azálea.
O amor,
essa indefinível criação do homem,
zigazeia breve por todos os caminhos.
O peixe, figo de figueira, punho ou pedra
Azálea flor, ou
É narrativa de sobrevivência.
hfa
vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv
As minhas mãos procuram as tuas
Em vão, era outro tempo de revés
Com o mar alto vazava a maré
O fogo nas minhas mãos acesas
Apagou com a espuma que rebentava
Do fundo do mar alto na maré vaza
Ficou o gesto das minhas mãos que
Procuram as tuas
Bêbado da espuma dos dias
Cego dos dias e das noites vazias.
hfa
vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv
Se eu soubesse
Se eu soubesse que o tempo amacia
Minha voz
Que se faria até espécie de amigo d'ocasião
Que te manteria ao meu lado
Mais branca
Mais calada
Mais insubstituível
Se eu soubesse que o grito se pode transformar
Em asa
Dilecta asa do dia clareado
Se eu soubesse que hoje estaria aqui
Sentindo a brasa da fogueira fugir p'ra cinza
Contigo sorrindo no sono maior do inverno
Se eu soubesse que o mundo todo nem pesa tanto
Só pesa muitíssimo de saudades
Se eu soubesse que o grito não me faria falta
Só a força dos braços
Só a vontade de te ver de novo morena
Minha mais branca, mais calada, insubstituível
presença
Se eu soubesse que virias a ser o maior amor da minha
Vida
Teria sido aquele que fui gritando para nada?
hfa
vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv
A Ponte
A luz perpassa a cortina embaciada
Envolve-se em mil pirilampos de prata
Molhada
Invade a privacidade de uns amantes
Vasculha a miséria sob a ponte das
Margens sujas
Quero-te tanto minha perdição
Diz um amante cego em gemidos
A pátria é Pária Parca Porca Pulha
Ouve-se em transtornos compassados
A luz não recua mas pouco mais alumia:
O corpo está sedento de prazer
A miséria germina à solta de milagres
A luz não recua. A névoa avança
E é nesta confusão de humidades
E reticências que o louco cala a lenga-
lenga e os amantes desfalecem ao seu lado
Mortais.
Entretanto o sol cresce no dia já largo
Há sítios escusos, escuros, escondidos
O louco dorme, a miséria cresce, os amantes
Estão sedentos de prazer
Não se adivinham luas românticas
Nem brilhos d'águas densas
A ponte fatiga
Os amantes gemem à vez
Os loucos varrem as horas com canções
de erres, de erros. De errâncias turvas
As margens explodem as virtudes da noite
São foguetes, são sonhos, são vinganças,
salivas, mamas, cús...
a luz não ilumina
nada amanhece nesta parte do rio.
hfa
vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv
Meu amor não fales
Eu calo-me
vamos tactear no escuro
fazer o que melhor nos sabe
Vamos agastar a réstea
mocidade
Deitá-la fora no suor das
Mãos
Torcer a cintura
Morder o silêncio
Gritar ao nascer do dia
Como galos cantar
Fazendo o que melhor
Nos sabe
Adormecer depois, morrer
Depois, envelhecer depois.
Agora calo-me de palavras
Não fales.
hfa
vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv
Dias de tragédia e eu penso em
Penso nas dobras do corpo p'las febres
dos outros, do que poisa negro ao lado
quando em nós o delírio faz.
Dias de tragédia e eu penso em
De como a lua banhava a cama onde
Cervantes, é nele que penso, quão louco requer
a mudança
Na cama suada, aumentando o teu sexo por mim
adentro, é nisso que penso
Dias de tragédia e eu,
sobre as personagens da volumosa literatura
sobre dois corpos poisados em palavras nuas,
penso nos cornos contra o sentido dos moinhos
Há uma enorme tragédia. Também um corpo em ânsias
próprias, é a vida.
Não respondes; procuramo-nos ambos na literatura
Por entre sexo, Roma, Cervantes, não esta tragédia,
mas a cama onde.
hfa
vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv
Imbricações
Escreveu a senhora:
"a presente questão tem fortes imbricações..."
Estupefacto fiquei com a simplicidade estética,
Imbricações, tomai nota!
Deu-me ganas de imbricar com ela
E depois de imbricar mesmo nela
Tentei, aliás, variadas imbricações
De nada me valeu
Eram só dela essas munições gasosas
Como ovos podres da sua imaginação!
Livra, do que me livrei eu,
Estaria agora imbricado até ao pescoço
Pela linguística, claro, essa enorme cobra
Que alimenta assassina o corpo do poder
hfa
vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvNinfa
Que pele delicada teus ombros têm
Que macio o tecido do teu corpo
Que jovem e proibida a tua face
Toda perfume do entardecer,
quando os teus dias só manhãs
atrevidas oferecem,
apoiaste a tua nudez nos meus olhos
quiseras unir-me aos teus lábios
delineados de primaveras poucas
num sorriso de lâmina fresca
Que brinquedo tão carnal
eu toque um dia
dando de cobiça aos meus dias
além de te olhar
algo mais por companhia
hfa
vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv
A Nanda da Tabacaria
A Nanda da Tabacaria
A todos recebe com "Bom dia alegria"
Tem olhos de grandes amêndoas como
a Twiggy dos anos setenta
Espanta ao entregar-nos o troco
com piadas de quem quer, mas coitada
não tem, a graça de poder encantar.
O marido que encontrou
É sisudo, pouco esperto, desconfiado
Mas o puto desta genética dá p'ró engraçado
Galante de certas finuras tem todo um ar
D'antiquário perfumado
Mas a Nanda, a Nanda da Tabacaria, quando avança
do balcão desorganizado range as ancas até à porta
arrastando consigo sabe-se lá o peso de que passado
E chegando à luz da rua - oh a sorte da rapariga!,
avistando o jardim que tem de frente
assobia uma espécie de uivo entre os dentes
e feliz corre sobre as flores sem o ressoar d'ancas
e as abraça ao peito arfante e lhes sorve o perfume
em visível transe
A nossa Nanda tem qualquer floral filia carnal
único erotismo que lhe imagino despida em casa
no meio de vasos e vasinhos com plantas, plantinhas,
humidade e luz no ponto, aos ais circulantes, deixando-se
tocar pelas pétalas, pelos grandes fetos, aos ais circulantes
com ressoar de coxas e quebras de amêndoas grandes
Olha a rapariga! Sem graça.. sem graça!..
Bom dia alegria e outras piadinhas sem sal...
Falo dela, imagino-a, e quisera Borges escrevê-la
era poesia que encontrava
Eu direi apenas, como cliente do jornal semanal,
que uma flor de sementes cresce dentro dela!
hfa
vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv
Sono domesticado
Há uma fileira de poeira talentosa
Que nos serve de leite matinal
Pelo almoço fornece proteína na dose recomendada
Mantendo pela noite dentro uma preguiça ordenada.
Técnicos com excelente formação avaliam sonhos
Empreendedores inovam as velhas rodas do sistema
Ostras crescem sem pérolas nos charcos da evolução
da pesca,
tal como os besugos do antigo mar e na terra a oliveira
disparam excessos rápidos imitando naturezas mortas
Na savana porém adoecem criaturas descoloradas de tanta
Polaroid, brotando nostalgias de catálogo, curáveis.
Há trabalhadores a coser o velho manual de passos
de dança
A coreografia raspada de bolores permite aderir por junto
A ofertas de TV por cabo, por fibra, por satélite, com
heróis lá dentro sem a ponta erótica de um pecado
a mover o mundo
Chocalha o sininho Zé: ashtags, cenas bué maradas, piadas
sub desenvolvidas, a cabeça em rinoceronte outra vez,
um blockbuster de Hollywood meu,
e nós somos o asteroide ao serviço das ordens retornadas.
hfa
vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv
Os beligerantes
No papel estava escrito:
"Os fluídos dos amantes
Em manchinhas pegajosas
Que secam amarelecidas nos
Lençóis postos a lavar"
A estes dizeres adocicados
Alguém escreveu por baixo
"Beligerantes - os dois amantes
na cama com suas contas de somar
mais ou menos certas consoante o
jeito natural de bem fodelhar"
Depois de um risco e de uma chaveta
Escreveu ainda
"Sabemos todos: quem inventou a guerra
Senão os dois amantes na cama que só
Dormindo e sonhando se amam..."
hfa
vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv
Espécie de Hino ouvindo a nona
Invade a música e nada floresce
Porque não é água nem sol nem terra
Embriaga por instantes a flor esplendorosa
porque flor é flor porque breve a sua morte
Farejas a pedra até ao bafo do lagarto?
Não te transformas, não, não ficcionemos
Mas caminhas para a humana substância, essa
de um elefante ao lado e próximo o seu cemitério
A música não aduba os campos nem a flor perdura
O lagarto não se faz amigo e o elefante desaparece
(mesmo que eternizes os acordes do teu verão na savana)
Invade a música e nada floresce
Mas no peito, quem sabe, imane luz fraterna.
hfa
vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv
Sem título (o que já é um título)
A moça sonhava seu sonho e
Era lírico o sonho que a moça
Sonhava
Tinha uma paz que crescia pelo dia
Uma manhã de bosques até ao mar
Mas quando fechava os olhos (e não
dormia), dançava num palco, tocava
Violoncelo, dirigia os pianos e os clarinetes
Tocava em orquestra, era maestro,
voz de soprano, Macbeth, Julieta, três
mulheres muito altas,
Lírico era seu sonho em tardes maiores que
dias inteiros,
Trabalhava seus morangos, molhava os pés
no tanque das rãs, olhava tudo e tudo amava
Era serva da terra e nativa das águas, artesã de
sua última morada em buraco de bicho sem
olhos
Prestes a embrulhar-se de raízes sonhava
Bailarina, compositor, palhaço, saltimbanco
Líricos os sonhos da senhora que repousa.
hfa
vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvO baile das pequenas figuras
Dois loucos de amor bailam por cima
Do meu braço
Eu faço contas, debito palavras escuras,
Tão escuras que arqueiam ombros e desfeiam
Olhares
Os dois dançam, loucos varridos
E mais dois compinchas divertem-se por cima
Do outro braço
Eu digo "orçamento", digo "respeitável", digo
"há que trabalhar mais e melhor"
Baixo os braços com as cócegas de tanta diversão
Saio da reunião e bailo também um pouco, escondida
Entre os armários tristes do corredor
Passo-lhes a mão pelas cabeças, digo "menos barulho",
Digo "menos cócegas", endireito-me e sorrio mais uma
Vez
Não me aguento e entro na brincadeira, pulo para o
Braço do chefe que passa e diz "há que limpar o nome da
Instituição" e diz "veja quanto nos custa limpar o nome da
Instituição", irritado repete para o rapaz da área
financeira
"veja quanto nos custa...", mas o rapaz já não ouviu,
ficou estático ao ver-me dançar no braço impotente do chefe
e soluçou gago "t-t-t-també-é-ém qu-que-quero"
Foi despedido. Para tudo há que aprender uns truques
Fazer de conta que sou sério Senhor Dr. e só penso em
seriedades
Digo "vou melhorar" e digo "somos um"
E digo ainda quanto nos custa salvar a instituição.
hfa
vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv
Corpos doídos
Porquê este azul arroxeado no horizonte
Porque pousa a folha perfeita tão próximo de nós
E o besouro, porque luz o seu corpo preto e suas
Asas de petróleo dentro dos nossos privilégios
Porquê tão visíveis as areias da praia em quase noite
Porquê já a lua se avistamos ainda um tão triste sol
Porquê esta beleza a invadir-nos a casa num dia normal?
vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv
Variações com pombos
i
O pombo de papo em pompa
Emproa plúmbeo peso sobre a
Pomba
De inflamado papo
De cauda em leque
Avança o patchouli d'engate
O pombo em pompa
Emproa mais papo
Alarga mais penas
E varre terríveis os
Odores rivais
A pomba empomba com o pombo que desemproa
A proa
Breve serão pais.
ii
O apartamento do andar de baixo entrou em obras
Os homens limparam a varanda dos lixos do abandono
Mantiveram o balde com a pomba e seus dois ovos
Lá pra dentro destruíram paredes, sanitários, mosaicos
Na varanda a pomba alimentava dois pombinhos sôfregos
E esfomeados
Pintaram paredes, colocaram armários, ripas de madeira
No chão
A pomba desapareceu
Os pombos passeavam, magritos, até às grades da varanda
Os homens não os mataram, deixaram-nos morrer enquanto
No telhado outros pombos com responsabilidades
Arrulhavam o dinheiro das apostas: poucos no voo; muitos
na morte.
iii
Eu gosto dos pombos e os pombos gostam de mim
Mas não ao ponto de trocarmos carinhos ou confidências
A nossa relação baseia-se, aliás, em manter a distância
Pensam eles que o meu propósito é matar
Penso eu que tão rápidas as areias cubram a cidade
As vítimas serão as do meu lado
O meu gosto pelos pombos não se abala na incerteza
Tenho-lhes amizade, sim, amizade de parque quando felizes
As criancinhas correm ao seu encalce
E mágoa, tenho-lhes mágoa quando abruptamente infelizes
Deixam cá em baixo escarnecidas criancinhas na tentativa de voar.
A nossa amizade é desta paz hipócrita:
Quando olho para a varanda de baixo e vejo que nascem pelo
Menos aos pares
E os pombos quando no parque arrecadam sobras do meu manjar.
iv
Não morreram os pombos sem mãe
A morte serve bem a ficção
Magritos os dois é verdade, um deles
Bate as penas no circuito da comprida
Varanda
Será pombo militar na disciplina do corpo moldado para
Voar
O outro, mais franzino, menos bonitinho, encolhe-se a um canto
Não se sabe o que será em grande
Dias depois o aprendiz de militar voa até ao alpendre
O franzino sem rumo na vida, em tudo mais demorado,
Dá tímidos passos.
Hoje terão voado, já não os vemos
Imagino morto o franzino e na academia o militar
Mas diz-me o porteiro que aquele ali, aponta,
À luz fria de um voo baixo, é o feiozito. Sim,
Reconheço-lhe a timidez. Olha! Olha! Um dissimulado,
foi o que me ocorreu dizer.
O pombo ontem enfezado levanta no voo, bate - que eu vi-
Nas folhas das árvores, grito-lhe: zarolho!
v
O jardim municipal à frente da casa está em obras
Levantamento do chão alcatroado, remoção das terras
Relvadas - para que o jardim brilhe antes das eleições
Felizes estão os pombos que não votam mas aproveitam
Nos socalcos abertos novas iguarias. São tantos! Uma
Concentração de apoiantes sem direito ao dever de cidadania.
Não aparecem as gaivotas bélicas, facto que comento com o
Homem do catarpiller, sim, continuo, estranho não virem
Apartá-las para reinar. O homem deu-me por fim a sua
Confiança: sumo de minhoca é saudável, faz-lhes bem, o pombo
Médico receita-o, Ah! exclamo e ele conclui: das gaivotas não sei,
parece-me que andam no lixo.
E o médico pombo, conte-me mais pedi, mas o homem nada mais
Tinha para me dizer. Meti as mãos nos bolsos e pensei no médico
Como um pombo atualizado, um cientista do seu tempo, feito
De tecnologias a apregoar sucos naturais de outros corpos mais
Pequenos.
Antes de terminar esta epopeia de pombos olho em redor, tudo
Em reconstrução, não reconheço nenhum dos pombos mas pressinto
O olhar do franzino sem rumo e, com a certeza da sua timidez,
Descubro-o solitário e esfomeado nos ramos das árvores, não lhe
Auguro muito tempo de vida, nem eu a ti responde atrevido
Olha. Olha. É mesmo ele, o zarolho dissimulado!
vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv
Canção do dia triste
Dia escuro e tão triste
Traz-me água para beber
No deserto minh'alegria
Soterrada
Minhas lágrimas em pó
Traz-me oh dia triste
água para eu beber
Sonhos então cristalinos
Já não consigo ver
Oh dia tão 'scuro desfazem-se
As mãos sem bem-querer
Um corpo quebrado não
Tem querer como das raízes
Desfeitas se escreve morrer
Oh traz-me água p'ra renascer
Dia tão escuro tão triste dá-me
Água a beber.
hfa
vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv
Domingo Jovem
O domingo em S. Vicente acorda com sol
O vento sustém-se, abanando as coisas leves
Os cães dormem por todo o lado, não há mal que
os desperte
A praça ecoa músicas da noite e as sombras das
danças mornam o chão
E a praia! A praia embala um longo sorriso que
o vento foi amansando pelas encostas negras e
varridas dos montes
O mar tem cor de chegada feliz e mesmo assim
o domingo em S. Vicente cava um vulcão, ou rea
cende-o dentro de mim, como os mortos nas mesas
de Natal instalam no peito suas espadas ferventes.
Mas o domingo ainda vai pela manhã e não trouxe
por enquanto a cor e o sabor da papaia nos passeios
ond' ontem eram os peixes que saltavam dos alguidares
p'rá venda
Esta hora 'inda guarda sonolência de grogue
Um velho passeia a bengala com camisa larga de verdes
Uma mulher trançada estende um sorriso porque sim
Porque é domingo talvez, um domingo jovem como ela,
a construir melodias sem natais, com o peito a crescer
no fogo dos desejos, e tudo isto (mais tarde) m'invade
oh milagre de Cabo Verde.
hfa
vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv
A flor de setembro
Eis que depois da cortina melancólica
Da chuva de setembro a flor despede-se
Em luz
O mistério permanece: o sol escolheu-a
Para nos enternecer ou das suas raízes
Nasceu a cor, o cheiro, o dia ao entardecer?
Amanhã nova chuva outonal virá molhar os
Passos em redor do jardim
A flor murchou de vez, o sol voltará depois
De curada a ferida, a primavera dar-lhe-á
Virgens flores vigorosas e desprevenidas.
hfavvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv
Poesia i
O poema é um demónio
Um frenesim em remoinho
Vestimo-lo com palavras
Domesticamo-lo
Confundimo-lo
Apresentado à sociedade
liberta-a, fá-la sonhar com
passarinhos...
regressar à infância de onde o
demónio saiu em remoinho
Vestimo-lo de música empapada
de cores enjoativas
ou ...
com a tal (...), a tal palavra des
medida!
No dorso da besta está escrita
a voz bendita, divina
às vezes decifrada na domesticação
da fera que consome as criancinhas
O poema da tal (...), da tal palavra
É o demónio ele mesmo
De olhos verdes e corpo molhado.
hfa
vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv
Poesia ii
Oh, a poesia, a poesia, que faz
A poesia para melhorar a tua vida?
Deu-te a visão ó míope, tirou-te um
Calo dos pés, branqueou-te os dentes?
A poesia é o fio de algodão andrajoso
Caído no chão
É a luz que nele brilha quando lhe bate
O sol
E é também a invenção do amor.
(hfa)
vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv
Noves fora zero
As coisas começaram a correr mal quando
cada um cozinhava sozinho suas habilidades
de gastro ciência
A bancada era de um ou de outro, nunca
um condimento mais se misturava
e tanto assim continuaram que às tantas
seus ais de prazer igualmente castro
ocupavam à vez a repentina madrugada
Mas ainda assim a coisa andava
Pior foi quando apareceu na história
a moça da estação de gasolina
Aí ela pensou - tudo estragado! - e pensou
ainda que a vida era um filme onde agora
entrava a cowboyada. Com aqueles amigos
da noite, fumando e bebendo enquanto esperavam,
o cônjuge e ela corriam perigo, ui pensava- finalmente
um lance arriscado.
O marido não sabia puto, a moça tudo sabia e ela
tinha como afirmação de vida que na morte o
que sobra é nada!
(hfa)
vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvv
Tinha Bens
Tinha bens, como se diz. Era rica. Era uma jovem
mulher rica.
Tinha alma de melancolia, a própria pensava
Pegava no carro e percorria a rota da luz,
Para observar melhor dava-o ao motorista e assim
libertava os meandros da alma nas curvas da viagem.
Pedia ao motorista que parasse. Avançava para encostar
o corpo nas ruínas das casas
Apanhava flores com pétalas que logo voavam. Abria
a destinada os braços a cada lusco-fusco e alvoradas
Apaixonou-se um dia por um casebre à beira da nacional
onde antes da estrada quase abandonada havia estrada
concorrida
e antes desta em natural comunhão humanas vidas
Comprou-a por tuta e meia - segredo meu motorista meu,
segredo meu
Caminha então para lá numa ânsia de se recolher a céu aberto
por cima de ervas e ao lado de bichos, encostada às pedras do que
fora casa - segredo meu motorista meu, segredo meu.
Escolhia um canto de onde via céu, uma árvore só dela e uma
enseada amarela da cor da séca, e ouvia um barulhinho de vento
que quase era água
Veio o inverno e fez obras na casa. Veio o verão e organizou festas
muito faladas
(Segredo meu motorista meu, segredo meu)
Depois arrancava com o carro e visitava do cimo de montes altos
abismos de mar e de terra e sentia o corpo como que a rogar
deixar-se cair por ali abaixo
Mais tarde havia de contar esta sensação ao motorista, ficava
sempre tão aflito o seu motorista, não percebia a sua estranha
melancolia. Tinha medo que se lançasse no embalo de um vento
que assobia palavras encantadas às serpentes suicidas que há nas
escarpas
Certo dia de maior desalento, avistou a jovem um pequeno
charco de girinos em transformação - segredo meu motorista
meu, segredo meu - e o motorista tão já mais melancólico ainda
coaxou como rã e saltou para a sua mão sedenta de criaturas
sós.
(hfa)
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Declaração de princípio
Acento desregrado
Tino tirado
Sentido não há
porque palavra
não é
Mas porquê? Se
xilépépé
diz disto o que
é!
Tantos santos
de tanto pecador
Tanto bruxo endireita
Padre e sua madre
Xilépépé pode ser o que
é
Princípio do vocábulo
lélé
ou
quando nada mais a
dizer: Xilépépé
p'ra ti e p'rá titi
mais que patati patatá
tanto bruáá
pouco tino
muita figura
estilo mui fino
Agora Xilépépé!
Ah, xilipépé é
bola de cabeça
pontapé do pé! Xi, fecha
a porta Zézé qu'isto
é coisa de gente xéxé!
(hfa)
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