Teatro em construção?


Ora Pois Claro

I

A frente de um edifício antigo, apalaçado, conservado, com uma bandeira a assinalar "coisa pública". As suas portas dão para uma escadaria que termina num átrio murado. O muro, não muito alto, separa o átrio de um rio que corre abaixo.

O público está de frente para o edifício, as escadas e o átrio murado. Sabe que há um rio que corre por baixo. Por vezes, com um jogo de luzes o público sente alguns pontos prateados de lua naquilo que será a água funda e lodosa do rio.

Algum frio.

Praça deserta.

Uma mulher desce lentamente a escadaria, pensativa, ausente, nada vê.

Um homem interrompe um gesto junto do muro apercebendo-se da aproximação de alguém. Corre furioso para a pessoa. Ela só se apercebe quando embatem.

Ele - Mas o que faz aqui? Tinha mesmo de vir agora?

Ela (baralhada) - Mas...e então... (atrapalhada) - este espaço é privado? é isso, é privado...oh onde ando eu com a cabeça (abre os olhos como que para ver melhor) ah não, não é privado, esta é a praça DAQUI. Ah! (virando-se para o homem com ar estupefacto) mas então, mas então, que mal tem eu estar aqui?

Ele (irrequieto) - Não é habitual ver uma senhora deambular a estas horas da noite nestes lados tão ...

Ela (mais desperta, como que espicaçada e com ironia) - Não é habitual uma senhora....já viu o disparate? Em que século vive vossa excelência?

Ele - Pode ser disparatado, mas olhe que também é perigoso. Já viu a malta que por aí anda?

Ela - Estou a vê-lo, a si. (Breve silêncio) e olhe que medo não me mete, assustou-me com a sua histeria, mas medo...

Às voltas um do outro

Ele - Claro, já entendi!

Ela - Já entendeu o quê?

Ele - Já entendi.

Ela - Já entendeu o quê?

Ele - Ora...

Ela - Ora?

Ele (olhando-a com ar trocista) - Ora...pois...claro. 0ra!

Ela - Ora pois claro, temos portanto um patego. Patego dever vir de pato, patos gostam de rio, porquê que não vai ver se a água está boa? Abanar as penas, afogá-las...

Ele (admirado e assustado com a frase) - O quê que quer dizer com isso? Eu só mirava o rio sob a lua. (nervoso) Já viu a lua, o lastro de prata nesta água tão castanha à luz do dia?

Ela - Oh (baixando a cabeça e sentando-se num degrau), desculpe-me, não posso olhar a lua nem o seu reflexo de prata no rio tão castanho durante a luz do dia...(os ombros mostram que chora, em silêncio).

Ele - Desculpe, eu próprio não devia....Enfim, se há coisa bela é a luz de algo que não tem luz sobre a nossa escuridão. Já pensou nisso? (Empolgado, como um professor) A Lua não é uma estrela, mas (vai perdendo fôlego e falando mais baixinho) enamoramo-nos da sua luz, emociona-nos a sua luz emprestada, uma falsa fonte, uma falsa luz....

Ela - Não me fale poeticamente.

Ele - Poeticamente? (Ri-se e senta-se também)

Ela - Há alguns anos que não controlo as lágrimas e os soluços de choro. A mais singela palavra me provoca desgosto, a mais singela imagem me provoca desgosto. Não leve a mal....Não o conheço, não tenho nada contra si (empertiga-se) - nem a favor, bem entendido.

Ele - Bom, o melhor é retomarmos a conversa de há pouco.

Ela - Pois é, a do Ora, Claro, Pois.

Ele - É de cá?

Ela - E de cá significa ser de onde?

Ele - Ora, já estamos outra vez na mesma....Gosta de desconversar.

Ela - Não, não é isso. Sejamos rigorosos. De cá quer dizer deste planeta? Deste país? Desta região, desta...

Ele - Desta santa terrinha! Sua Excelência é de cá?

Ela (levanta-se e continua como se não o tivesse ouvido) - Porque hoje em dia também temos que ter em conta extra-terrestres, seres terrestres estranhíssimos, seres sem cérebro, seres amorais, e quando pergunta a alguém se é de cá pode querer saber "é cá dos meus?" e eu não sei nada sobre si, sei lá, pode ser dos acéfalos, dos maus, pode acreditar no poder malévolo das mulh....

Ele - (Já levantado. Exasperado, soprando-lhe na face) É louca! Biruta! Maluquinha! Maluca mesmo! Louca!

Ela - Porque saber se sou daqui, desta terrinha, não tem qualquer interesse. Nenhum. Portanto, leva-me a crer que o sentido da pergunta é outro, (e agora grita) percebe?

Ele (em tom elevado) - Sabe, nos velórios há sempre quem entre, espreite a fotografia do defunto, quando a há, ou relanceie o olhar sobre o caixão, e não percebendo se conhece o morto pergunta à família enlutada, em dor, "era de cá?".

Ela - E acha aceitável? Acha aceitável que um filho, por exemplo um filho, sim, por exemplo um filho que chore o pai e lhe apareça um curioso.

Ele - Em geral é uma curiosa....

Ela - E apareça um curioso cuja única coisa que tem para dizer é "o defunto...

Ele - Ou a defunta ....

Ela - (mais irritada) - ou a coisa (pigarreia), a coisa amada defunta: "é de cá"?

Ele - Bem, pense em quem não tem ninguém a velar-lhe a despedida...neste caso não há quem possa responder... (Repensa, como se estudasse uma equação.) Bom no caso de um desvalido não há a quem perguntar se o abandonado é de cá, e o mais provável é nem haver velório....portanto a despedida....

Ela - Oh, não me fale em despedidas, oh que me comovo, oh que desgosto...e chora baixinho.

(Sentam-se ambos com alguma distância)

Ele - Desculpe (depois de um silêncio) - desculpe de novo, acalme-se...mas .... mas não deixa de ser estranho que tenhamos falado em defunto, defunta, coisa amada, e não tenha caído em desgosto...é seletiva a carga do seu desgosto...é...sei lá...enfim... só para perceber...fala-se em lua chora, fala-se em defunto, em dor, nada, ou melhor, irrita-se, fala-se em despedida...enfim....

Ela - Não goze.

Ele - Não! É que, pensando melhor, eu sei bem o que isso é. Olhe, quando vejo um filme sou capaz de chorar convulsivamente (ri-se), desavergonhadamente! Noutras situações...olhe, situações reais....olhe....somos esquisitos.

Ela - Somos?

Ele - Não somos?

Ela - Quem?

Ele - Ora.... quem....

Ela - Ai. Ora. Pois. Claro. Quem?

Ele - Nós!

Ela - Não está a falar do senhor e de mi....

Ele - Nós humanidade Senhora!

Ela - Oh, que patetice, já devia estar à espera, mais poesia...vá continue...dê-me poesia que que só agora começamos!

Ele - Já tou a ver...

Ela - O quê?

Ele (levanta-se e fala-lhe do alto, a gozar) - Não posso dizer porque lhe causaria desgosto, cairia em pranto.

Ela - Ora...

Ele - Claro

Ela - Pois.

(silêncio)

Ele - As pessoas gostam de identificar para poderem geo-situar-se. Por isso lhe perguntei se era daqui. É por essa necessidade de identificação que os curiosos, às vezes somente tontos, procuram saber quem partiu, na esperança de poderem concluir que não era nenhum dos deles, do grupo onde são reconhecidos. Enquanto houver alguém que reconheça ou possa ou pudesse fazê-lo existem....Deve servir de alento...e se ...

Ela - Não gosto de histórias completas, não preciso de saber os porquês. Não me explique.

Ele - Percebo. Percebo! Também sou um bocadinho a....

Ela (aproximando-se do muro sobre o rio) - Mas o que retiraria de mim se eu lhe dissesse: sou daqui; ou lhe dissesse que sou de longe e que estou de passagem...

Ele - Se for daqui é muito estranho estar a esta hora sozinha nesta praça. Todos sabem que é um sítio perigoso quando escurece. Se não for.....não deixa de ser estranho uma turista escolher vir a este lado desértico...

Ela - Tem o rio (e chora) ....

Ele (olhando-a com espanto) - Tem o rio!

Ela (desperta) - Sabe, não lhe vou dizer de onde sou.

Ele - Basta-me pensar que é deste planeta (ri-se)

Ela - E o senhor? Que faz aqui a estas horas perigosas? É de cá, isso já percebi.

Ele - Ah, é esse o seu género: não conto nada mas quero saber tudo?

Ela - (encostada ao muro, virada para a escadaria) - Há muito que perdi o meu género.

Ele - Pronto, lá voltamos nós....

Ela - Há pouco, quando eu disse que o senhor não me mete medo e o senhor me disse que já tinha entendido tudo....o quê que entendeu?

Ele - Ah! Ah! Nã....nã...não me apanha. Ora...

Ela - Pois...pois tá bom de ver...

Ele - Claro.

(Silêncio)

Ele retoma - Entendo que é uma daquelas senhorecas sabichonas que acham que já perderam tudo e que portanto o faro dos meliantes não as apanha, como as cadelas velhas que os cães desprezam ficam à vontade ....e por isso veio aqui, a este lugar perigoso a esta hora perigosa para...

Ela - (interrompe-o sôfrega e altiva) Senhoreca? Palavra estranha, tem qualquer coisa de desprezo chique. "Olhe aquela senhoreca", soa-me a...não, não, acho a palavra horrível. Que raio, faz parte de um dialecto local?

Ele - O que faz aqui afinal? (expectante) Se me contar eu conto.

Ela - (hesita, parece que não vai responder, mas decide-se, com um sorriso trocista e arqueado) Ia a passar vinda dali (e aponta para a esquina do edifício). Só estou aqui porque o Senhor desatou a falar comigo. Há quanto tempo não falava?

Ele - E a senhora, há quanto tempo não chorava?

Ela - E o senhor? Há quanto tempo perto da água?

Ele - E a senhora, há quanto tempo não dorme?

Ela - E o Senhor, vá diga, porque estava tão abeirado da água?

Ele - Olhe, porque saltei do rio. (Ri-se) - Já não tenho muito oxigénio, se calhar não posso terminar esta conversa...tenho de mergulhar de novo para junto dos meus pares...

Ela - Leva-me consigo?

Ele - Ora!

Ela - Pois.

Eles (em suspiro) - Claro.

II

Ouve-se uma algazarra e aproxima-se um grupo de rapazes e raparigas, uns cinco a cantar, a gritar, a partir garrafas, ouvem-se asneiras. Descem a escadaria a correr e param no muro, a resfolegar. Um senta-se em cima do muro e grita animado "- Vou atirar-me. Mais um ao lodo!". Riem-se. Calam-se abruptamente. Silêncio. Dois puxam de um cigarro mas só um fuma.

Uma das raparigas - Vamos embora. A noite também é uma seca.

Um dos rapazes - Atira-te ao lodo. É para isso que o rio está aqui.

Ouve-se algazarra por trás do edifício antigo.

Um dos rapazes - 'Bora lá ver o que se passa. - E enquanto ainda fala já todos correm desenfreados pela escadaria. Desaparecem. Vai-se deixando de ouvir qualquer barulho.

Um jovem desce as escadas calmamente. Traz um sorriso descaradamente zombeteiro. Indisfarçavelmente vencido. Pára a meio da escadaria. Abre os braços, depois faz pontaria ao rio com os dedos da mão a fazer de pistola. Parece um pouco alcoolizado. Não sabemos bem.

Jovem - Ah Grande Cabrão! (ri), grandessíssimo cabrão. És mesmo cabrão. O raio do rio!

Com um sorriso zombeteiro, algo misterioso, mantém-se a meio da escadaria com os olhos postos no rio. Pequeno silêncio.

Jovem - De dia parece feito de lama. Um ser desfigurado que se esconde. À noite, ah, à noite....à noite brilha como uma jóia! Cabrão de merda. É como aquelas gajas que se aproximam de um gajo, dengosas, e toca daqui e toca dali...cabrão....quando um gajo se atira e põe a mão na massa, aqui del Rei que sou virgem e.... - ri-se - eh pá, ou pior, ai que fui uma ganda maluca, fodi com todos e agora não, agora não quero mais disso para mim, mereço melhor, tenho de me respeitar....Ahgggg, és mesmo assim, cabrão de merda - ri-se - também és prata luzidia...só de noite, só de noite; também te roças com esse brilho do catano...e depois? Depois...ah depois ou um gajo resiste, porta-se bem, regressa para a sua vidinha, tristezinho, a acarretar com todos os males, a achar-se um ganda zero - Desenha um zero com a mão no ar - UM GANDA ZERO....ou pumba, arrisca-se e atira-se de cabeça e - ri-se - pumba que já foste! Ficas fodido em qualquer dos casos...(pensa) bem, se calhar a morte não é fodida....tu é que te alimentas dela cabrão!

É qu'as gajas...tamos numa discoteca, um som bué de corporoso e elas ondulam, fazem aquelas cenas com o cú empinado e...ah caraças do rio...pois... depois do pumba...olha, mai nada, que sou virgem, que já fui uma ganda puta mas renasci...olha, pumba, morri!

(Estático sorri como de uma anedota que não se ouviu) - Iá, o pessoal sempre a dizer - com ar afectado - ai que não posso viver longe da água, do mar, do rio, ai que se me dá uma coisa. Cabrões. Repetem-se até nos foderem o juízo. Ai que só sei viver apaixonado...esta é outra. O caraças é que não conseguem! Estúpidos. Mentirosos.

(Silêncio. Há um certo abatimento, um certo alheamento, mas mantém-se de pé.)

Querem água, pois tomem-na. Bebei todos deste lodo prateado até rebentarem tipo peixes insuflados.

(Cala-se de novo e vai entrecortando o silêncio com algumas palavras: - querem água...tomem lá, bebei todos...............raio do rio.......brilha como uma jóia caralho.....)

Revigorado: - é que o rio, este, é uma calamidade. Caem aqui que nem tordos. A goela do gajo é - ri-se muito - ok...piada baixinha...mas a goela do gajo é uma garganta funda...ri-se muito e engasga-se e continua a rir com vontade, espontâneo. O rio é pornográfico, ahahahah, na mouche.

Sou bom nestas coisas de inventar com palavras...sou bom em tudo o que é inútil.... Sou medíocre em tudo o que pode ser válido....Por exemplo - e gesticula como se desse uma aula - spreads bancários...eh pá, os amigos que eu perdi por não conseguir manter uma conversa com spreads pelo meio...caralho, continuo sem perceber....foda-se, spreads! Todos a pagarem um spread...ahahah, todos a darem no spread, foda-se!, e eu com a minhas enormes inutilidades!

Ainda dei umas aulas...- olha para o público- sei que 'stou a falar sozinho...e???....pelo menos (olha descaradamente para o rio em baixo como um forcado para o touro) ainda não me atirei prá prata da casa ehehe... Dizia, minha tão cara noite, que ainda dei umas aulas...mas, oh sim, houve um mas.....quiseram foder-me o cérebro. SIM! Avaliação do desempenho. Avaliação da mediania, avaliação foda-se. Que eu dava cabo da cabecinha dos meninos a falar de shopenauer, o misógino, ah misoginia essa palavra maldita...ahahah, vá lá, oh tu, (apontando para o céu) - oh tu dicionário universal, diz-me cá, o homem só foi isso, misógino, é só disso que se lembram quando falam da pobre criatura feia e inteligente? ....oh qu'a pôrra...avaliação do meu desempenho a coninha da sobrinha, papeis, mais papeis, mais papeis, mais papeis, mais papeis, mais papeis...eh pá, podia estar aqui a vida toda a repetir mais papeis, mais papeis, mais papeis, mais papeis, e nunca seriam tantos! Papeis, papeis, papeis, papeis....Pobrezinhos dos meninos, morrerão de tédio, sem nunca lerem Capote, Melville, Twain, Goethe, Homero foda-se, sempre de volta do b a bá dos idiotas. Ah, Flannery, Szymborska e.... papeis, e papeis.....

E agora ando com umas letras na cabeça...não me largam... - olha o rio - foda-se g'anda cabrão, não és só tu que andas na minha cabeça....a minha cabeça é muita grandeeeee, eu sou muitoooo inteligente....o menino de sua mãe é muitooo inteligente....só não sabe puto de qualquer coisa que seja útil, spreads....futebol, eia pôrra, os amigos que eu nunca tive por não saber népia de futebol!....

(Senta-se. Cala-se. Baixa a cabeça. Depois levanta-se, fica no mesmo lugar, no centro, no meio da escadaria, e dirige-se ao rio)

Tu sabes, sacana, por que vim....já somos dois a saber, hein?

Agora oiço duas músicas durante o dia todo. Todinho! Eia! O dia todo com esta....- (tira do bolso um telemóvel e põe sinner man de Nina Simone, já no meio. O som muito alto. Ele a repetir a letra alto e a dançar como num ritual):

I said rock

What's the matter with you rock?

Don't you see I need you, rock?

Good Lord, Lord

All on that day

So I run to the river

It was bleedin.....

Quando a música para o jovem sossega aliviado, fala como se as palavras pairassem, leves, mas com graça - os gajos que só podem viver ao pé da água, do rio, do mar...ai qu'hórror!...- não termina a frase, está mais calmo, fica sentado, sereno....

(silêncio.

Sem falar põe outra música, o samba Naquela Mesa)

Eu não sabia que doía tanto

Uma mesa num canto, uma casa e um jardim

Se eu soubesse o quanto dói a vida

Essa dor tão doída não doía assim

Agora resta uma mesa na sala

E hoje ninguém mais fala do seu bandolim

- 'stás a ouvir ó rio que afogas os melhores, os inúteis...... (baixinho, em tom acusatório para o rio) só que ela não era inútil estupor!...

Levanta-se e de pé, no centro e ao meio da escadaria, com dignidade revigorada, aponta a mão em pistola para o rio e vai-se aproximando do muro até que ouve uma voz vinda de um canto que se ilumina ligeiramente.

Ele - Não quer juntar-se a nós?

Ela - Lá está o Senhor, qual nós, nós quem?

O Jovem, surpreendido e, como se fosse outro, descomprometido e alegre - Ora, não se zanguem por minha causa...

Ele - Pois... havendo dois já é nós.

Ela - Havendo três somos uma comunidade, é?

Ele - Ora pois...

Ela - Claro...

Jovem, brincalhão - Se a brincadeira é de palavras vou convosco: Ora Pois Claro!

III

Os três num canto, calmos.

Ela, dirigindo-se ao jovem, maternal - Mas então por que razão se aproximava do muro...pensámos que...já sabe, a fama deste rio...

Ele - Ah! Ah! A senhorita conhece a fama do rio! Hélas! Sabe que desde que a vi acho que a conheço, a senhora é de cá.

Ela - Sou de cá, sim, do planeta Terra, sim sou.

Ele - Ora...Voltamos ao mesmo.

Ela, virando a sua atenção para o Jovem - O que o atormenta tanto?

Jovem, descontraído - Julgo que o que vos atormenta também. É sempre o mesmo. Os mais fracos sofrem sempre do mesmo. Do inverno, e também do verão, especialmente do outono, das ausências, dos sonhos, do dia-a-dia, dos outros, especialmente dos out...

Ele - Ora, os fracos, os fracos....como se correr para a morte lodosa e fria fosse coisa de pouca coragem.

Ela, dirigindo-se outra vez para o jovem - Bebeu? É que faz tão mal beber, entaramela o raciocínio, não devia....não devia beber....nã....

Jovem - Beber? Eu?

Ele - Talvez droga...

Ela - qual quê? Este lindo rapaz? Droga? O senhor é mesmo...

Ele - Sou o quê?, Sou o quê? Ai!

Ela - Não sei....persecutório...

Jovem - Vá, acalmem-se. Persecutem-me sem violência. Disso estou eu farto, todos os dias, à claridade do sol....

Ela e Ele - Pois claro, ora, pois claro, também nós, também nós....

Eis que se ouvem passos de corrida, todos se viram para a escadaria e detrás do edifício surge uma rapariga que corre, estanca momentaneamente no cimo da escadaria e retoma uma passada convicta, quase a correr. Não desce os degraus um a um, percorre cada fila, da esquerda para a direita e salta para o degrau de baixo, da direita para a esquerda e desce mais um degrau, sempre com ar decidido, meio destrambelhada nos movimentos, mas decidida. Cada vez mais veloz, agora no meio da escadaria. Corre para o muro lateral e embate nele com toda a força do seu corpo, desatando numa gargalhada defronte dos três que se entreolham estupefactos e a observam em choque.

Rapariga - Um espectáculo só para os mirones, só para os mirones, só para os mirones!

Ele - Não sei que diga...

Ela - Não sei que diga.

Jovem - Ora, pois claro, Amélia do caraças, és mais louca do que eu pensava.

Rapariga - Ajuda-me a levantar. Acho que parti qualquer coisa....

Ela para ele - Conhecem-se!

Rapariga - Estou farta. Todos os dias se fala do rio, deste rio. No mundo somos conhecidos como os que se atiram ao rio. Mas o quê que este rio tem?

Jovem - O quê que a baiana tem já era um mistério....

Ele - Ora...

Ela - Ora...

Jovem - Pois claro! Foi uma tentativa de suicídio falhada, a tua, Amélia do caraças.

Rapariga - Só para os mirones. Só para os mirones. Agora poderão dizer: também há quem se atire ao muro!

Ela - Ora....

Ele - Ora!

Jovem - Andas sempre por aqui tu.....gosto menos dos que se lamentam dos que alimentam as estatísticas do rio...

Ele para Ela - Eu conheço-a! É a Mirita. A sua mãe era endireita (a gozar) e mais qualquer coisa e....

Ela - E o Senhor é o professor Anselmo Cruz, o que escreve no jornal e dava aulas de História. Eu reconheci-o logo. Foi professor da minha irmã....

Ele - Oh....também eu a reconheci mal a vi! A Mirita, quem diria, fez-se uma senhora.

Ela - O professor, quem diria, ainda vivo.

Rapariga - Muito bem, Professor, Mirita, Joca Biróta e eu, Lady Amélia Tragédia. Muito bem... Como vamos acabar a noite?

Ele - Ora.

Ela - Pois.

Jovem - Nada claro, nada claro. O senhor é o Professor Anselmo....olhe, eu não o reconheci....ninguém gosta de si....seria bom perceber porquê....

Rapariga - Como se houvesse alguém que goste de ti.

Jovem - Olha quem fala, a esquizofrénica dos ataques violentos.

Ela - Eu andei na vida.

Jovem - Andamos todos. É faltar-nos o dinheiro e pumba, estamos na vida. Com dinheiro sempre há ...

Rapariga - O sonho.

Ele - Não sei o que diga. Desperdicei a vida.

Ela (fria) - Os remorsos afogam-se no rio.

Ele - Ora, não foi a senhora que matou o bébé!

Ela - O bébé....

Rapariga - Ora, que vamos fazer, ajudam-me a subir a escada?

Jovem (a rir) - G'anda maluca!

Ele (a rir) - Há pois é!

Ela - Não há dúvidas, ganha o prémio da noite!

Vão subindo a escadaria, cada um com seu rumo.

Ele - Foi uma noite boa. Ninguém saltou...

Ela - O bébé...

Jovem - Sacana do rio, hein?

Rapariga - Ora, sacana do muro!

Ele - Pois....

Ela e o Jovem - Ora pois, pois claro.

Rapariga, falando alto para o jovem que já está mais distanciado, mas ainda olha para trás mostrando que a ouve - Gostei das músicas.

Vóz off (enquanto os quatro vão desaparecendo com o apagamento gradual de luz)

- E amanhã como é?

- Amanhã! Como é? Quem é quem?

- Eh lá....como é que é amanhã?

- Eh, psiu, psiu, como é que é?

hfa

FIM